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24 de agosto de 2010 - 4:05Crônica

A curiosidade que mata

SÃO PAULO | Vai uma crônica, destas que escrevo de tempos em tempos — agora muito mais raramente —, aproveitando os últimos dias de folga. Digamos que a situação tem traços de realidade, evidentemente exagerada em muitos pontos, bem como o fim da história. O nome da personagem é Evelyn. Aleatório, claro.

A curiosidade que mata

Era na cozinha que Evelyn matava o tempo até que berrasse o ringtone da cantora pop mais falada dos últimos dias para saber das novidades alheias trazidas em primeira-mão pelas amigas (e também amigos; fofoca não se furta ao gênero). Gostava da simplicidade do macarrão, afinal o cozimento da massa e a apuração do molho de tomate (nada destes embutidos ou enlatados) lhe permitiam ficar os minutos a mais necessários para se surpreender, debater e assentir as notícias. Foi picando o manjericão, coisa que a mãe nunca aconselhara, que o celular tocou.

Largou a faca daquelas que corta tudo, menos as meias-calças que nunca desfiam, e com pedaços verdes da hortaliça na mão direita que bem recebeu nova ligação de Roberta, a terceira ou quarta do dia. O longo oi foi interrompido quando a amiga veio com a voz exasperada.

— Você não sabe da última? — e parou por um instante. — Ou sabe?
— A última de agora vira a penúltima dos próximos minutos — filosofou Evelyn, esperando que aquele tom de surpresa e mistério se quebrasse de início.
— Talvez você não saiba, então — sentenciou Roberta.

Evelyn corou e por um instante preocupou-se. Antes que Roberta perguntasse, sentou ali mesmo no sofá, colocando uma almofada no colo.

— Conta logo, menina.
— Estou passada — revelou Roberta.
— Então foi feio o negócio — deduziu Evelyn.
— Estou passada que a Luciana ou até mesmo o Fernando não tenham ligado pra contar.
— Como é que o Fernando sabe disso antes de mim? — e Evelyn indignou-se, atirando a almofada longe, com alguns pedaços de manjericão juntos.
— Acho que o Paulo falou pra ele — disse uma Roberta meio instigante e provocadora.
— O… o Paulo?

Pode-se dizer que Evelyn não ia muito com a cara de Paulo, assim, numa definição mais eufemística. Paulo foi durante anos, por não décadas, seu grande amor. Colega de escola, quase vizinho, aquela coisa toda de quem nutre um amor de criança e adolescência que foi correspondido só aos 22, por poucos dias, até descobrir, sem que ninguém lhe contasse, que Paulo sempre preferiu a irmã, Claudia. Triste, quase mortal, foi o dia em que Claudia e Paulo apareceram oficialmente como namorados. Evelyn sentiu-se perfurada por aquela faca. O tratamento fraternal nunca mais foi o mesmo. Passou a nutrir ódio visceral por Paulo, ainda que nunca tivesse sido explícito em sua frente. Restou, como consolo, aproximar-se aos poucos do gêmeo Fernando.

O intento amoroso não teve muito êxito, mas Evelyn preferiu usar Fernando como fonte — principalmente do relacionamento do irmão dele com a irmã dela —, assim como todos os demais amigos. A derrota no amor fez dela uma desconfiada congênita. Tinha de saber tudo de todos para não se passar por enganada.

— Nada mais natural que o Paulo tivesse contado pro Fernando, né? — e Roberta enrolou a mão livre no cabelo, compondo rodamoinhos que lembravam chifres de uma diaba em ação.

Evelyn sentia mais um golpe e seu “me conta agora” já denotava certa tensão. Roberta provocou, acenando para alguém que estava ali perto.

— Nem mesmo a Claudia chegou a falar que… — e Roberta foi interrompida por um não ecoante.
— A Claudia ainda não chegou. Estou sozinha em casa. E você sabe muito bem que ela não ia me falar nada de nada.
— Ah, ia sim. Até porque também envolve o Paulo.

Por um instante, Evelyn refletiu que se tratava de uma brincadeira. Mas Roberta não estava lá num bom dia, pensou, até porque os telefonemas anteriores mostravam uma moça mais preocupada em descobrir meios de conseguir o número do rapaz com quem havia ficado na balada do fim de semana — que ela mal lembrava a fisionomia, dado o uso obstinado e constante de uma vodca de qualidade duvidosa. Tentou trazer o assunto à tona para reverter a situação.

— Pois eu tenho um amigo que me ligou há pouco e sabe do saradinho que você beijou — mentiu Evelyn.
— Diante do que aconteceu, bela bosta — respondeu Roberta.

Bela bosta era uma definição da cara de Evelyn. Cônscia de que havia perdido a batalha, implorou pela revelação.

— Pelamordedeus, Roberta, me conta, então. Para eu ser a última a saber é porque vocês estão me poupando de algo…
— Você concorda que coisa ruim chega sempre antes, não?
— Então não é coisa ruim — e Evelyn tentou um suspiro que durou pouco.
— Bom, depende do ponto de vista.
— Ruim é ruim para todo mundo.
— Não seja extremista. Você já terminou o macarrão?
— Está cozinhando lá, e vou deixar cozinhar demais se você não me disser.
— Então ligo depois porque sua mãe ficaria muito puta se você jogasse fora de novo.

Roberta desligou e Evelyn se enfureceu. O molho já tomava conta da casa e podia-se ouvir seu borbulhar pedinte daquele manjericão que restava na tábua de madeira. Pouco importava. Evelyn buscou o telefone de Luciana. Deu caixa postal. Tentou o de Fernando. Reclamou quando não foi atendida no segundo toque. Terceiro, quarto, e, enfim, a voz.

— Oi.
— Como oi? — veio uma Evelyn agoniada.
— Oi é breque de burro, como diria meu pai — brincou Fernando. — Olá está bom?
— Vamos pular essa parte.
— Não, vamos por partes. Você queria que eu atendesse como? Não seria muito legal se eu falasse “o que você quer, sua vaca?” — ironizou.
— Depois eu comento sua falta de educação. Vamos, me diga.
— Digo.

Evelyn subiu um degrau a mais na escala do nervosismo. Pegou a outra almofada que viu por perto e jogou-a de novo no sofá.

— Õ sem-graça, que tal você me contar?
— Você poderia ser mais específica?
— Odeio quando você faz isso, Fernando. Igualzinho ao Paulo. Odiável.
— Foi para isso que você me ligou? — e Fernando falou num tom desafiador que logo levaria ao encerramento da conversa. Ouviu Evelyn soltar mais umas abobrinhas queixantes e, de fato, desligou o telefone. Foi poupado pela saraivada de xingamentos que deixaria Dercy Gonçalves de peruca em pé.

Evelyn tentou ligar para Luciana de novo. Em vão. Hesitou em apertar o botão que chamava Roberta. Preferiu, angustiada, terminar a obra culinária. Naquele estado, não demorou a cortar a ponta do indicador da mão esquerda na quarta ou quinta vez em que fazia do manjericão já picado quase farofa. Retomou as más palavras em seu torpor. Nem mesmo percebeu que o celular soava. Só quando parou de reclamar é que ouviu a canção em seu fim. Com o papel-toalha estancando o sangue, correu. Não deu tempo, e no visor do celular apareceu a chamada perdida de Luciana.

Retornou de pronto. Começou a andarilhar pela casa. Ficou esbaforida quando viu que a ligação não completou. Xingou a operadora. A operação foi repetida. Novamente, rede ocupada. Xingou a operadora, a fabricante do celular, quem havia comprado a faca que cortou seu dedo, o agricultor que cultivou o tomate e o manjericão e até a si mesma, por ter decidido fazer naquele momento tão importante aquele macarrão que já se encontrava mais papa que o sumo pontífice.

Evelyn já era a imagem do desespero. Apelou para o telefone de casa. Mas nem se lembrou que os pais haviam bloqueado as ligações para celulares quando não estavam em casa — fruto do uso descontrolado de Evelyn para suas conversas edificantes. Claro que ela xingou os pais, os avós e toda a geração anterior que os puseram no mundo. Evelyn sentiu-se amaldiçoada, azarada e pôs tudo aquilo que sentia para fora sem que ninguém pudesse lhe ouvir. Voltou para a cozinha e enrolou um pouco mais de papel no dedo que ainda via uma fresta de hemácias ululantes por uma vida fora das veias quentes. Jogou com tamanha displicência o manjericão no molho que o fez espirrar, o manjericão e o molho, pelo fogão. Caídos no bocal do fogo que só parecia aumentar, sujaram a peça redonda metálica. Evelyn xingou Murphy.

A garota correu para pegar o pano da pia e tentar reverter semelhante porcaria, e no que foi tirar a panela do molho para colocá-lo em outra boca, eis que o celular tocou com força. Era Roberta.

— Agora você vai me falar — e Evelyn nem mais escondia seu desejo reprimido de gritar.
— Mas eu não acredito que você ainda não sabe — falou Roberta, debochante.
— Eu não sei, Roberta — retrucou Evelyn, sílaba por sílaba, tal como engenheiro de equipe de F1 a piloto brasileiro. — E acho que você vai ficar mais curiosa pelo que já aconteceu comigo e pelo que pode acontecer. Então me fale já o que aconteceu.
— Ah, Evelyn, este seu joguete é tão arcaico, soa pueril e pouco inteligente, até. Sei que não aconteceu nada, diferente do que aconteceu com Paulo e…

Evelyn não esperou que Roberta terminasse. Arremessou, fula, o celular para o alto. Desgraçadamente, o aparato bateu no teto e caiu na caldeira do macarrão, jorrando água quente que voou em razoável quantidade no braço da garota. Gritou, óbvio, quase infartada, com as dores das queimaduras e a da cabeça por, depois de tudo, mal saber do que se tratava a tal novidade. Rangeu os dentes, continuou na cozinhava, mas queria correr em disparada para que sua descoberta fosse satisfeita. É que o incômodo e a vermelhidão já lhe eram maiores, daí fez-se acéfala. Pegou gelo, pôs a pedra para aliviar, viu ali o fogão sujo do molho esturricado, correu para desligar o fogo, e, trêmula, tropeçou e caiu atabalhoadamente sobre o eletrodoméstico.

Claudia entrou em casa tempo depois esfuziante e esbaforida, com um envelope em punho. Enquanto Paulo fechava a porta, gritou pelo nome da irmã. Sentiu um cheiro forte e continuou a chamar por Evelyn, sem obter resposta. Antes de entrar na cozinha, falou alto.

— Evelyn, querida, você já deve saber. Mas está aqui. Estou grávida.

E Claudia petrificou-se quando viu a irmã no chão, desfalecida, vermelha, pelas queimaduras e pelo molho de tomate que lavava o chão ao lado daquele macarrão grudado que servia de embrulho para o celular que já não tinha mais vida, tal como aquela moça que só queria saber o que havia se passado com a irmã e com seu desafeto que foi seu grande amor, e que praticamente cometeu suicídio por não controlar aquela que foi sua principal característica.

Pois Evelyn não conseguiu matar sua curiosidade. Morreu dela.

8 comentários

  1. Acho que está mais para conto. Fala de um acontecimento que não determina um tempo específico. Trata-se de uma comédia do cotidiano.
    E você forçou a barra matando menina.

    Tenho um blog de crônicas, entra no meu link!

  2. Rafinha Dias disse:

    Tadinha da Eve….como diria minha mãe: “..isso é amor e desse amor se morre…”

  3. Francisco Luz disse:

    Certo que vai sair casório disso aí. Só espero que o namorado da Eve não se abale e vocês me convidem.

  4. Mauro Rodrigues Junior disse:

    Cara, de boa…
    Que história triste!

    ================================
    Mudando um pouco de assunto…
    O que você acha da bagunça na Coréia para construir o bendito autódromo deles?

    Não seria interessante se alguém no Brasil jogasse verde junto ao Bernie para sediar esta prova?

    Enfia lá no Velopark!!

  5. Fernando C disse:

    Acho que é você que é apaixonado pela Evelyn!

  6. Borgo disse:

    E o seu amor por Evelyn vai se aflorando…

  7. Fábio disse:

    crônica com ótima fluência, mas a morte não foi bem usada e aproveitada, o desfecho foi muito rápido perto do resto da narrativa.

    mas gostei! abs

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