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12 de junho de 2013 - 21:47Crônica

40 mil vezes 20 centavos

SÃO PAULO | Afastada dos protestos dos pseudojovens que, em nome de um transporte público 20 centavos de dilma mais baixo, acabam com ele, aquela senhora de baixa estatura e óculos que encostava na bochecha subia a longa rua sob o sol que lhe ajudava a trazer o brilho encrustado pelo suor. Parou quando o viu, e a calma ao falar também denotava sua procedência de vida severina. Colocou a mão direita na cintura enquanto segurava com a outra a bolsinha que certamente carregava alguns poucos 20 centavos e sua identidade. “Moço, você sabe onde fica a Cantareira?”

O moço ali apontou para a curva sinuosa que se seguia e tratou de explicar que o caminho terminava em um sinal e, pronto, aquela senhora já podia chegar à avenida desejada. A senhora ajustou os óculos e não agradeceu, mas preferiu elucidar a curiosidade, se o moço a tivesse. “Eu estou procurando um posto”, e deu detalhes do posto muito evidentes de quem já esteve naquele posto, mas que o passar do tempo e sua vida trataram de borrar. Voltou-se à ponta da ladeira para continuar a conversa e contar que visitara dois postos e perguntara ao dono, ao frentista e possivelmente aos clientes em sua busca, mas diante do que recebia, não, não era nenhum daqueles. São Paulo é uma cidade de manifestações, vândalos e muitos postos.

A senhora também tinha um turbante branco bordado bem ajustado, tal como a visível dentadura que mostrava ao silabar a necessidade de chegar ao posto. “É que meu filho trabalhava lá e foi demitido, e o dono ficou devendo um dinheiro para ele porque tinha algumas dívidas. Daí eu soube que o dono vendeu o posto e estou indo ver se consigo o dinheiro do meu filho de volta”, ela disse, fazendo com que o moço concluísse se tratar de uma causa justa e o provável posto do posto. Questionou a senhora de quando que o rebento havia trabalhado, confirmou ao ouvir que “já tem uns três anos”, tornando a indicar a rota e, então, virar à esquerda para ver o que sobrou do posto.

As sobras do posto são algumas pilastras e, de vez em quando, uma churrasqueira que é usada nos finais de semana para os notívagos que voltam da balada e não têm do que se fartar. O local foi vendido a uma construtora para dar vez a mais um destes blocos de andares de comércio ou residenciais de boa localização, e enquanto o moço assim pensava, a senhora balbuciava duas ou três frases repetidas até que o preço da dívida saltou aos ouvidos: “São 8 mil reais”.

Rápido em matemática, o moço logo comparou que o valor são 40 mil vezes maior que o aumento da tarifa do transporte metropolitano, pela qual a mãe, o filho e a família deveriam lutar. Quase quis, aliás, ir lutar com ela, sem nenhum interesse, mas porque aquela senhora notoriamente precisava daquela grana e pela simplicidade. A simplicidade que não se encontra nas vestes, na bolsinha, no sotaque, no turbante e na idade, mas na esperança escondida nos olhos de quem espera encontrar alguém num lugar onde não há mais ninguém, para pedir o que era de seu direito do seu filho e, portanto, seu.

Ela sorriu e agradeceu e foi, e o moço tomou seu rumo reflexivo e sabedor de que aquela senhora tinha motivos de sobra para fazer a maior manifestação do mundo, ir à Paulista com seu filho e demais parentes com placas com palavras de ordem e reivindicação, com apito na boca e cara pintada, procurar a cabeça do ex-dono de posto caloteiro, arrebatar mais gentes para que aderissem à sua causa e protestar dentro dos seus limites. O posto está lá, destruído, e não foi a senhora a culpada, e em nenhum momento ela deu motivo para que seu protesto virasse protesto de ninguém.

Contida no seu silêncio, sem carro do ano e smartphone para postar a foto do caminho de sua desgraça, a senhora terminou o dia na mesma São Paulo sem reaver os tantos centavos, e assim vai terminar todos os seus outros dias, provavelmente na batalha e eternamente muito maior e mais digna que todos os vândalos juntos.

Adendo: quinta-feira, tarde/noite. Diante do que se tornou a manifestação, muitíssimo além dos centavos a mais, e com essa (des)organização que é a Polícia Militar, uma excrescência que traz seus pútridos resquícios da ditadura, não tem como não apoiar aqueles muitos que estavam lá para reivindicar na paz, como trouxeram os relatos de colegas e anônimos que os acompanharam do Viaduto do Chá à Consolação. Ainda, é a evidência extrema de que o governador e o prefeito são dois omissos, cretinos que não merecem crédito algum da população. O estado está falido, e diante das cenas de guerra que pararam a principal avenida da cidade, nós estamos perdidos.

Não sou partidário de vandalismo, ainda mais com quem não tem que pagar o pato. Mas com a rebeldia do povo diante do modelo de governo, principalmente com esta corporação que deveria dar segurança, mas traz medo, faço aqui um mea-culpa de apoio.

Adendo 2: Elio Gaspari fala de quem é a culpa.

30 comentários

  1. Sam disse:

    Caraca, também pensava muito assim. Essa visão, centrada. O texto foi perfeito. Mas outro texto com outra visão foi ainda mais a fundo e faz todo o sentido da reflexão dessa visão. Confesso que a minha mudou bastante. http://flaviogomes.warmup.com.br/2013/06/gira-mondo-gira-49/
    A todo caso sempre é necessário a reflexão, gostei muito do texto Victor, admiro muito quem emite suas opiniões sobre a sociedade além do foco esportista que é o principal do blog.

  2. Fabio disse:

    Muito fraca a sua lógica, Victor. Ainda mais utilizando um exemplo aleatório da história da senhorinha. No caso do filho dela, existe um artifício (por incrível que pareça) efetivo para ele recuperar o dinheiro dele: chama-se justiça trabalhista. Como advogado, sei o quão rápido o estado age a favor do trabalhador. Ainda mais se houver dolo do empregador.

    Analisando sobre o protesto dos “míseros” R$ 0,20, há alguma forma de eu como indivíduo solicitar à justiça o não aumento da tarifa? Não, não há. Para isso, existem protestos. Aliás, protesto: essa prática trancafiada pelos militares e sufocada desde o inicio de 1990 pelo governo. Quando o povo começa a despertar para esse bem comum, caras como você usam argumentos para desqualificar o movimento? Se as 10 mil pessoas fossem vândalos de fato, não teria sobrado nada na Paulista e o número de baixas seria tremendo. Todo mundo que vai ao estádio é vândalo como os integrantes das torcidas organizadas?

    Minha namorada que é alemã (e lá eles entendem de protesto) fez uma colocação que talvez vá além da compreensão dos que pedem para a “pulicia” baixar a borracha nesses baderneiros: “na Alemanha começamos protestando por coisas pequenas e básicas. Hoje não damos margem para políticos corruptos e ladrões. Esses jovens estão no caminho certo.”

  3. Granito disse:

    Apesar de concordar integralmente com o q vc escreveu, principalmentesobre depredação de bens públicos durante manifestações contra governos estabelecidos, fico preocupado com o tratamento dado por algumas pessoas quanto ao fato em si.
    O fato, quando a manifestação é contra um ato de um governo de esquerda é repudiado por uns, não pelo fato em si, mas é tratado quase como uma traição ou como ignorantes inflados pela mídia golpista. Quando o governo é de direita , é sempre um ato extremo justificado pela grande injustiça social, como acontece em alguns atos do MST, q agem com violência e destruição e as mesmas pessoas tentam justificar. Espero q não seja seu caso, pois tanto um ato como outro me causam repúdio, mesmo em q se pese a grande diferença social no campo e na região urbana, mas o q me choca ainda mais é o aproveitamento político da desgraça q nosso povo sempre sofreu, com governos de direita, esquerda e centro, q sempre tiveram como objetivo se perpetuar no poder e muito pouco se preocuparam com o desenvolvimento da sociedade.

  4. Franklin disse:

    Victor,

    Ótimo texto!

    Parabéns.

  5. Anderson disse:

    É, cada um olha pro seu umbigo. Esse é o problema do Brasil. A máfia dos transportes estupra o patrimônio da população em doses homeopáticas e um ou outro vidro quebrado é “vandalismo inconsequente desses jovens delinquentes”.

    O valor da passagem deve ser barato mesmo pra ser errado manifestar.

    • Victor disse:

      VM responde: “Um ou outro vidro quebrado”. Cara, EU VI DE PERTO A MANIFESTAÇÃO. Sem cretinice. Os caras estavam lá para destruir as estações e pichar ônibus, aqueles que eles querem melhor e mais barato. Não foram reivindicar preços baratos de ônibus. E, desculpe, preciso desenhar pra você entender que o problema não é manifestar, mas O MODO COMO SE MANIFESTA?

      O povo não sabe manifestar sem partir para a violência – de várias formas; a polícia não tem preparo algum para nenhuma situação. Dá na merda que deu.

      • Wilson disse:

        Acredito que dessa vez o Victor perdeu uma grande chance de ficar calado!
        Não se trata de apenas vinte centavos e sim em todo o absurdo que é o valor do transporte público que de público não tem nada.
        Vândalos existem em todo o canto. Por ser uma manifestação os ânimos principalmente de quem esta revoltado se aflora e não tem como ser diferente, principalmente quando a tropa de choque esta sentando bala de borracha e bombas a esmo, seja nos “vândalos” ou em civis que nada tem haver com qualquer movimento.
        O despreparo da Polícia e o descaso do Governo são o verdadeiro vandalismo em nossas vidas todos os dias.

    • Claiton Rocha disse:

      A saúde que se foda, a educação que desça ralo a baixo, vamos fazer um piquete pela preço da passagem, afinal eu tenho plano de saúde e meu pai paga a escola, mas o dinheiro do busão para ir no shopping não pode subir. Caro, tem coisa muuuuuuito mais importante para se fazer protesto do que a passagem do ônibus, que convenhamos que só funciona por que é pago. Você já viu no interior quantas crianças tem ônibus para ir para escola a quilometro de distância? Antes de defender um protesto elitista e politico, se informa mais sobre o País que vive, ou continue a ser um otário achando que vinte centavos vai mudar a sua vida.

      • Anderson disse:

        Falar que o transporte funciona só me faz perceber que o otário não sou eu. Ou que você não usa transporte público a muito tempo, se é que usou algum dia.

        • Claiton Rocha disse:

          Desculpa Anderson, realmente estou errado, pois aqui em Curitiba, das poucas coisas públicas que funciona, é o ônibus, ainda assim tem os seus problemas, mas inferiores aos vividos por vocês paulistas, cariocas e brasilienses (querem ver um transporte público lixo, vão para brasília). Peço desculpas, admito que estou errado. E pelo movimento que estou vendo não só em São Paulo, mas no país inteiro espero estar muito errado e que consigamos levar isso adiante, pois só transporte público não vai mudar a vida de ninguém.

  6. Sanzio disse:

    Tanta gente com motivos de sobra pra atear fogo no mundo mas não o fazem, e esses arruaceiros promovendo quebra-quebras a troco de R$ 20,00 por mês, na pior das hipóteses.
    Esse mundo passou da hora de acabar…

  7. Hamilton disse:

    Victor só esqueceu de também multiplicar os 20 centavos pela quantidade de dias úteis, pela quantidade de trajetos e pelo número de pessoas que utilizam o sistema.

    Não acho certo o vandalismo, mas é melhor um protesto com certo vandalismo do que protesto nenhum.

    • Victor disse:

      VM responde: Meu deus do céu. Então se todos forem protestar contra o Feliciano, tem de necessariamente bater nele? Desisto do mundo.

      • Hamilton disse:

        Não disse “necessariamente”, nem que “aprovo”, apenas que é melhor que haja protesto com alguma violência do que nenhum protesto.

        Lembre-se que até nos países ditos “primeiro mundo”, o povo toca fogo nos carros alheios, depreda de maneira até mais violenta para chamar atenção da mídia. Aí talvez você como jornalista, talvez saiba explicar porquê a mídia só dá destaque a desgraça. Nunca vi vários jornais dando grande destaque a protestos “educados”.

      • Claiton Rocha disse:

        Victor, alguém protestou contra o Feliciano?

  8. Robson disse:

    Gosto do que você escreve, e sem dúvida esta é uma história tocante e digna de protestos, por que não? No entanto, não acho justo menosprezar os outros protestos, mesmo que sejam por 20 centavos (que significam mais que seu valor intrínseco). Lembre-se que ” a ninguém parece leve sua própria cruz”.

  9. R/T disse:

    Martins, você é demais …

    Que texto lindo, cara, confesso que me emocionei

    Grande abraço,

    Edu

  10. Felipe Salgado disse:

    Que ótima crítica! Parabéns Vitão, abraço!

  11. Eugenio Bastos disse:

    Sensacional, meu caro! Baita texto! Como dito por Flavio Gomes: tem gente com 2400 reais pra gastar em bugigangas que vão depredar algo de uso de pessoas como essa senhora.

  12. Anderson Oliveira disse:

    Victor,

    Sinceramente, acompanhanho todos os dias o seu blog, e sempre com matérias interessantes e observações pertinentes. Porém nada que viesse a emocionar de tal forma como esse texto, é o sentimento que muitos deviam ter em um momento pelo qual estamos passando, sob protestos e vandalismos, que tem sua causa, que infelizmente, fica perdida perante um tanto de seres desprendidos do mínimo caráter.

    Parabéns pelo texto, e não deixe que esse sentimento pelo bem, de fato, suma.

  13. dc disse:

    Sem palavras, muito belo (e triste, muito triste) esse texto.

  14. Fabiano disse:

    Como diria o Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”
    O que está por trás é muito mais que 20 centavos de aumento, Victor. Mas, é sua opinião e seu blog (claro!) e respeito.

    • Nicholas Sana disse:

      Fabiano, vc não poderia expressar melhor o que senti ao ler isso….a bela forma da escrita são inegáveis e admirareis!!! mas minimaliza a situação a quase nada ao fazer esse tipo de comparação…..O que está por trás é muito mais que 20 centavos de aumento.!

      • Victor disse:

        VM responde: O que está por trás: o posto está destruído, e não foi ela. Ela se manifesta em silêncio sem precisar acabar com o que é dos outros. Faça o protesto que quiser, desde que o seu protesto não vire motivo pro protesto dos outros.

        • yurinando disse:

          Vitor, eu admiro suas reportagens, mas vejo que está
          engessado nesse assunto, surpriendente.:
          Vc acha que as manifestações deveriam ser assim?
          MANUAL DA MANIFESTAÇÃO POLITICAMENTE CORRETA

          Fundamental: NÃO ATRAPALHE!
          Procure fazer manifestações em horários que não atrapalhe ninguém, pode pensar um horário pra madrugada.
          Também é muito importante a escolha do dia. Tente ao máximo fazer aos domingos. Quase zero de transtorno. Pense sempre no seu colega conformado e acomodado que não se manifesta, não incomode ele.

          Fique passivo ao Estado. Obedeça as instruções dos policiais. Não se esqueça que eles são do povo, defendem o povo e estão ali só pra te defender de alguém. Não sabemos quem, mas estão ali pra te proteger. Sempre siga o trajeto que eles ordenam.

          Caso os amigos policiais te batam aceite quieto! É pro seu bem. Se você está apanhando algum motivo tem, nunca que esqueça disso.

          Caso a polícia venha trazendo caos pra uma manifestação pacífica e chegue dando tiro, jogando spray de pimenta e bomba de gás lacrimogéneo o mais importante de tudo é lembrar que você merece. Já falamos sobre não estar apanhando sem motivo. Mas além disso saia ordeiramente! Não quebre nada em bancos, eles são mecanismos que ajudam no progresso da humanidade. Eles não extorquem a população mundial e nem são grandes responsáveis pelas crises econômicas no mundo. Não deixe seus recados de protesto em muros ou mesmo na lataria dos ônibus. Só se eles tiverem assinado termo atestando que querem participar do protesto, deixa eles com as belíssimas propagandas publicitárias que sempre ostentam estimulando o consumismo burro e desenfreado. E, claro, apanhe quieto. Não revide. Defesa não é um direito seu.

          Mas acima de absolutamente tudo, pra você ter um bom protesto, NÃO SEJA NOTADO!

          Faça todo o possível para ninguém notar você e nem sua causa. Alias, sua não. Causa de todos.

          [alerta de sarcasmo, alerta de sarcasmo, alerta de sarcasmo]

          • Victor disse:

            VM responde: Porque manifestar por um bem que você acaba destruindo realmente é uma lindíssima forma de se manifestar. Como você diz, é ‘surpriendente’. E não estou entrando no mérito da polícia, que é pior ainda, essa merda de fardas.

          • Bruno Braz disse:

            O Victor deve viver em um país que não o Brasil. Só pode. Com certeza o protesto em silêncio da senhoria será frutífero e ela irá recuperar os R$ 8.000,00…

        • TurcoMaldade disse:

          mas o ato de alguns invalida a demanda de todos?

        • Fabiano disse:

          Vitor, por anos fui morador do Baronesa de Arary, edifício da Av. Paulista. Fui testemunha ocular de diversas brigas campais. Sei muito bem que algumas pessoas já vão com o espirito para vandalizar. Mas, se todos que tivessem ali fossem pra isso, SP estaria em guerra civil.
          E historicamente falando qual grande protesto não acaba em violência? Qual? Se nós temos 13º salário, férias e outros direitos conquistados com muito sangue, porque hoje um protesto tão relevante não seria diferente? Ainda mais com uma PM tão despreparada e um Estado tão fascista que ainda prende seus colegas de profissão sem pudor algum?
          Como já disse, entendo seu ponto de vista. Mas, acho que o que está em jogo é muito mais importante do que desqualificar os protestos por culpa de alguns mais exaltados, ou mesmo, com uma intenção mais criminosa.

          Forte abraço,
          Fabiano de Oliveira Santos

  15. William Carvalho disse:

    Sem palavras, Victor. Sem palavras.

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