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29 de novembro de 2014 - 3:12Crônica

Chespirito

CHaves

SÃO PAULO | Ei, você. Você que nunca contava com astúcia minha ou de quem quisesse, você que nunca pediu para que os bons te seguissem, você que nunca pediu palma e que não criasse cânico, você que nunca teve uma anteninha que detectasse uma presença de um inimigo, você que nunca suspeitou nada desde o princípio, você que nunca sentiu que seus movimentos são friamente calculados, vale a pergunta: você viveu?

Você nunca se sentiu tão herói e fraco quanto um Chapolin?

Mas você nunca viu que as outras pessoas não tinham paciência contigo? Você nunca fez nada sem querer querendo? Vai me dizer que você nunca quis ter uma bola quadrada ou não comeu aquele sanduíche de presunto com gosto tomando aquele suco de limão, que parece de groselha, com gosto de tamarindo… não?. Vai me dizer que você nunca fez ou falou nada disso, isso, isso, isso? Ai, que burro você é. Dê zero pra você mesmo.

OK, você marcou suas férias para o México e… nunca quis para Acapulco com tudo pago e com todas as despesas pagas? Ou pelo menos para Tangamandápio? Cara, você é jovem ainda. Não sabe que amanhã, ao menos, velho será?

Você viveu? Você existiu? Isso me dá coisas.

Entendo. Você talvez seja como a gente, esta gente que não sabe muito bem lidar com a morte. É que a gente não estava preparado para esta morte. A gente esperava essa morte porque essa morte já vinha sendo anunciada, mas todas as vezes eram meio que só estavam brincando. Tipo daquelas que o senhor não vai morrer. Vão matar o senhor. Precisaram matar o senhor pra gente acreditar que o senhor, Chespirito, tivesse morrido. O senhor estava morto várias vezes, e nesta vida de redes sociais, precisa se provar que o senhor morreu. O senhor morreu para quem acha que o senhor morreu. Mas não.

Sua morte, Chespirito, por exemplo, não vai nos fazer parar de ver Chaves amanhã, e depois de amanhã, e 2015, 2016, 2020, enquanto o SBT existir, enquanto uma emissora que se construiu em torno de um programa enlatado hecho en México de uns 20 e tantos minutos com uma pureza de humor que nunca mais alguém há de bolar resolver exibir esse programa. Quer ironia e humor maior do que você morrer, Chespirito, durante sua exibição por aqui? O senhor lá passando com todos os seus amigos, daí cortam a transmissão para falar que o senhor morreu? O senhor não morreu. Nunca vão matar o senhor. Ninguém nem o Quico.

A gente que entende um pouco mais desta coisa de vida e morte, passagem e outra vida, sabe que é só perder esta vida. A gente demora a assimilar sua grandeza. Entre Chaplin e Chapolin só tem uma letra de diferença; a genialidade em construir algo tão simples para arrancar um riso é idêntica. Vê só se estes humoristas todos aí conseguem fazer o mundo gargalhar sem uma apelação sequer. Nunca. E olha que todos eles se inspiram no senhor. Mas eles estão enganados. Extra, extra, muito mais que 13 pessoas enganadas.

A gente viveu a história e viveu sua história. E quando todas as gentes de vários credos, de várias idades e de várias emissoras se debruçam à genialidade de alguém que não é brasileiro com mucho orgulho, é porque estas gentes sentem esta morte e sabem o Chaves que cada uma delas carrega em si. Elas sentem que existe mucho amor.

Boa noite, meus amigos. Boa noite, vizinhança. Boa noite, Chespirito. Amanhã e depois, assim que eu assistir ao senhor nesta vila daí, zás, zás, zás, eu só vou chegar e apenas aplaudir, e vou dar risada, e vou assistir mais e mais, e zás, sem dizer adeus jamais.

Não se diz adeus a quem vai fazer sempre parte da vida.

23 comentários

  1. Alexandro disse:

    Texto magnífico.

  2. Maurício Falleiros disse:

    No Memorial da América Latina tá rolando uma exposição sobre o Chaves, organizada pelo SBT.

    Dizem que tem muita fila, mas vale a pena todo mundo ter paciência com ela.

  3. Paulo disse:

    E ZÁS…….

  4. Sérgio disse:

    Acho que sou o único cara que nunca viu graça no Chaves / Chapolim…

    E antes que me encham de porrada, era simples fato de não curtir mesmo,… nada mais e nada de menos!

    Que ele descanse em paz, já que pelo que entendi, vivei 85 anos muito bem vividos!

  5. Renato F1 disse:

    Isso, isso, isso, isso!

    Impossível complementar algo no seu texto, Victor Martins! Se melhorar, estraga!

    Como dizia o Seu Madruga: “tinha que ser o Chaves, de novo!”

  6. Celio Ferreira disse:

    Belo texto, para um belo personagem………..sem palavras.

  7. Mário Sergio disse:

    Obrigado Victor. Vou ali, assistir o filme do Pelé e volto.

  8. Sil C San disse:

    Estou imaginando a bagunça agora lá no céu com o Seu Madruga, Dona Clotilde, Jaiminho e agora com o Chaves. Deus deve estar dando boas gargalhadas. Parabéns pelo texto Victor!

  9. Vinícius disse:

    Ó o nozinho na garganta…

  10. Thiago disse:

    Você assiste o Chaves a 20 e tantos anos. Você já decorou os episódios, as falas, os momentos, as piadas. Você ri da mesma forma, toda a vez.

    Essa é a prova de uma obra inigualável.

    Se existir um outro lado, tenho certeza que a tietagem por lá deve estar difícil de segurar, agora… uma confusão danada.

    Tinha que ser o Chaves, mesmo! :~)

  11. Adam disse:

    Magnífico texto. Só tenho a agradecer!

    Reflete exatamente o sentimento nosso deste eterno Herói.

  12. Adam disse:

    Magnífico texto! Refl

  13. R/T disse:

    texto lindo, confesso que as palpebras suaram

    você é foda, Martins, genial mesmo

  14. Vinicius disse:

    Excelente texto Victor!

  15. Filipe Dutra disse:

    chespirito era o mexicano mais brasileiro, e, por mais que tivesse seus erros, é o caso em que sua obra ultrapassa qualquer coisa negativa. Muita gente costuma ser fã da pessoa depois que ela morre, mas, no caso dele, isso corresponde à verdade. Todo mundo era fã dele.

  16. Luis Tucci disse:

    E temos que pagar tributo. Pela obra dele e pelo teu belíssimo texto, Victor.

  17. José Roberto disse:

    de suar o olho.

  18. Camilla disse:

    Que texto lindo e emocionante! Confesso que derramei algumas lágrimas. Esse cara vai fazer uma falta, mas vai estar sempre guardado em nossos corações.

  19. Bruno Leal disse:

    Perfeito, Victor. Abs.

  20. Mauro disse:

    Desta vez, ele foi sem querer, mesmo!
    A coisa do menino sózinho…meio que abandonado despertava em todos uma “paternidade”. Eram risos…e ainda o serão por muitos anos…mas antes de tudo era ternura…uma vontade de abraçar e defende-lo.
    Chaves entrou na casa de todos…sem querer…querendo, e todos de uma maneira ou outra o acolhiam.
    Nunca vou esquecer meu pai rindo muito, mas nós os jovens metidos a besta, criticando-o por ver algo “brega” e já velho. Precisa ter maturidade, ou muita jovialidade para entender, apreciar, degustar como um bom vinho, toda a “sabedoria”, humildade e simplicidade de Chaves. Chaves é simples como a vida deve ser. Chaves “dava um tapa na cara” da intelectualidade! Chaves era mais sábio!
    Meu pai agora, vai poder desfrutar de sua companhia. E rir de nós! Adios nino Chavo!

  21. Parabéns pelo texto, meu amigo! De uma sensibilidade incrível. Compartilho deste sentimento! Lá em cima ele está no melhor lugar!

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