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29 de abril de 2016 - 20:07Crônica

Paulista, 807, 802

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SÃO PAULO | Não tinha o porquê de passar em casa para trocar a roupa que, hoje, serviria como uniforme da Renault. Assim que saí da entrevista com o banco que seria meu primeiro trabalho por cinco meses, peguei o ônibus, o metrô, o crachá e o elevador. Bati à porta do 802.

A porta abriu. Tales Torraga me permitiu ver a redação pequena, e lá ao fundo, o mais pequeno ainda Flavio Gomes largou o cigarro no cinzeiro e me cumprimentou. Já havia trocado alguns e-mails com ele naquele segundo semestre de 2002. Ele precisava de alguém no futuro próximo para substituir Everaldo Marques.

Não fiquei muito tempo. Eu teria tempo para ver bem a pequena redação.

Por pequeno, entenda que o 802 do 807 da Paulista é uma salinha de escritório suficiente para abrigar a equipe de então e hoje mal comporta metade da equipe do Grande Prêmio. São duas mesas assimétricas, algumas cadeiras diferentes e nunca muito confortáveis, o jeitão de antigo, a parede amarela, a azul, a laranja, o banheiro cuja descarga chega a gerar medição na escala Richter e o encanamento que vertia água meio amarelada.

A partir de 2003, o canto da outra mesa passou a ser o que eu usava das 8h às 13h. Rodrigo Borges, que veio a ser meu primeiro colega efetivo, revezava o turno e o espaço comigo nas cinco horas subsequentes. Nem imagino hoje começar a trabalhar neste horário com um só cuidando de tudo isso. As coisas mudaram muito: os colegas, a escala, o cargo, o esquema, a visão e a atribuição. Mudou quase tudo. Menos a redação.

OK, alguns detalhes, sim: os quadros com as principais páginas de jornal das coberturas de F1 dos anos 90 ganharam a companhia de troféus, o bico de um F-Ford que, coincidentemente, tem meu nome, um baú e uma penca de Almanaque Warm Up que fizemos impresso. Foram rifados de lá o computador preto, um par de impressoras, fios que não levavam a lugar algum e outros objetos que, se eu não lembro, Gomes menos ainda.

Parei de ir àquele lugar com frequência com o advento da banda larga. Mas com o aumento da equipe e de colegas aqui de São Paulo, comecei a propor nos últimos anos que fôssemos pelo menos uma vez por semana para trabalharmos juntos. Para dar uma cara nova, eu me propus a ir atrás de um escritório de arquitetura, com o qual fiz uma permuta, e um lindo projeto para revitalização do espaço saiu. Só não saiu do papel.

Muito provável que, aparte o fato de que não havia um orçamento disponível para tocar a reforma, a redação não quisesse mudar. Que deixasse, então, ali, viver o grande armário preto da entrada, os quadros do francês Tony e a pintura da brasileira Wilma, o pneu inflável furado ao chão, a coleção de miniaturas, o pistão, o quadro com as credenciais, o armário de suporte da TV, de livros e da cafeteira – que não é a esquentadora de água que fez Gomes se gabar por anos, até que Cláudio Carsughi, um belo dia, soube apoiar o lado certo da força, o frigobar que gela que é uma beleza e suporta uma pinga das boas, a poltrona amarela de tantas histórias e o fax que resiste a tudo isso. E a folha A4 já amarelada ainda colada no lado interno da porta com uma série de itens à pergunta ‘você já se lembrou de…’.

Sim, eu já me lembrei de tanta coisa no dia de hoje que o suadouro dos olhos explica por si só o que vivi com todos. Fotos, nao tenho, e estes 13 anos  vou ter eternizar na pasta vermelha do projeto que ela nunca foi e no crachá que vai ficar pendurado como os quadros das páginas de jornal.

Tarde da noite ainda devo passar lá, escondido e sozinho, para ver a redação pela última vez. Não seria justo não me despedir de quem teimou ser a mesma, mas uma companheira de personalidade que soube abrir a porta para ser quem eu me tornei. A porta do 802 do 807 da Paulista tem de fechar.

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